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Estratégias de educação musical inclusiva quando o aluno não consegue praticar em casa

Eu já dava aulas há alguns anos quando recebi um aluno com deficiência intelectual. O que o laudo dizia não traduzia a vontade que ele tinha de tocar. Ele queria — e muito. Mas não tinha instrumento em casa. E foi aí que algo aconteceu que não foi só comigo. As perguntas vieram, quase automaticamente: “Se ele não repetir em casa, vai esquecer tudo até a semana que vem. Como vamos avançar?”

Essa é uma das maiores frustrações de quem ensina música. Quando o aluno não consegue praticar entre as aulas, a sensação é de que o trabalho não se sustenta. E quando esse aluno tem uma deficiência intelectual, a ansiedade do professor costuma dobrar. Fomos ensinados a acreditar que a evolução depende da repetição mecânica em casa. Mas esse caso me mostrou que o avanço não está na quantidade de horas no instrumento, e sim na qualidade da ancoragem construída durante os 50 minutos de aula.

Logo nas primeiras aulas eu sabia que teria que adaptar as estratégias pedagógicas totalmente para ele. Tanto a parte motora como a cognitiva eram desafiadoras, mas, sem dúvida, a cognitiva era o que me preocupava mais.

Detalhe: ele entrou em agosto. E todos nós sabemos o que acontece entre novembro e dezembro, certo? Recital.

O que eu já sabia? Mostrar uma partitura e esperar que ele associasse aquela bolinha preta a uma tecla era um salto cognitivo grande demais.

Fui por outra rota, a partir da aprendizagem significativa.

Ali, eu entendi que o problema não era a falta de instrumento — era o caminho que eu estava insistindo em usar.

A ponte de conhecimento.
Antes de tocar qualquer nota, buscamos algo que ele já dominava no mundo real para servir de “gancho” para o novo conceito musical.

Não apresentamos no piano naquele ano. Aproveitamos uma música que ele já cantava, respeitamos a fase da hierarquia psicomotora em que ele estava e tocamos: surdo. Sim, surdo.

Fizemos duas células rítmicas que iriam ser usadas na peça. E pronto: apresentação organizada.

A família participou, ajudando com os ensaios das células rítmicas em casa, cantando com ele. E foi tudo bem.

Nem sempre a evolução acontece onde a gente aprendeu a procurar. Às vezes, ela acontece exatamente quando o professor aceita mudar o caminho.

Outros casos me ensinaram que mudar o caminho não é exceção — é parte do trabalho.

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